Sobre o Estado:

maio 10, 2009

A INSTITUCIONALIZAÇÃO DO ESTADO PARTINDO DA PERSPECTIVA DE GEORGE ORWELL NO LIVRO 1984

Taís Ziegler e Bárbara Bezerra[1]

A Análise Institucional surge nos anos 70 como uma abordagem que propõe, através da articulação de conceitos e instrumentos de análise, a partir da emergência de dispositivos que venham a provocar os sujeitos constitutivos de tal instituição, a transformação dessas instituições e suas ações. Traremos então, o Estado futurista imaginado por Orwell no livro 1984 como nossa instituição.

A Obra traz uma reflexão acerca dos estados totalitários no momento pós-guerra que acabam tomando conta de vários países instituindo com o nazismo, stalinismo, fascismo e comunismo, regimes de governo antidemocráticos. Entendendo o conceito de Estado como sendo um processo coletivo onde a nação é esta coletividade limite, a “comunidade das comunidades” como coloca Burdeau e o Estado como sendo a “instituição das instituições” segundo Maurice Hauriou, então, temos a primeira contradição acerca da coletividade que inexiste no Estado de Orwell, pois a coletividade só existe quando os indivíduos estão implicados na formação desse coletivo, uma vez que o Estado posto em análise, se instaura de forma autoritária utilizando a repressão para que não houvesse qualquer tipo de manifestação coletiva, onde até a relação entre pessoas de sexos opostos era “proibida” (o relacionamento, homem-mulher, era visto como sendo funcional, pois deveria ser apenas com objetivo da procriação, o amor era subversivo), transformando os indivíduos em peças para servirem ao estado através do controle total.

Georges Burdeau, trazendo a idéia de que a institucionalização não seria um fato sociológico e sim um ato jurídico, criador do Estado, afirma que o Estado se forma quando o poder assenta numa instituição e não num homem, surgindo assim a segunda contradição, pois no estado criado por Orwell o poder maior é dado a uma figura humana, o Grande Irmão (Big Brother), que passa a dominar a população através de práticas de controle,  como a utilização de  teletelas para vigiar a sociedade, a redução do idioma (novilingui), e extirpando a memória da população para que não se tenham referências históricas para que se  desenvolvam críticas, nivelando assim a sociedade de acordo com os interesses de dominação, onde apenas uma única pessoa comandava a todos. O Estado serviria para a manutenção de um status quo.

Como ferramenta da instituição totalitária que é o Estado governado pelo grande irmão, o partido IngSoc, se materializa passando da superestrutura para a infra-estrutura, na forma de quatro ministérios. Ministério da Verdade, responsável pela falsificação de documentos e construção de uma realidade favorável ao partido, no qual o personagem Winston, que é o personagem principal dessa ficção, trabalha e percebe essa distorção da realidade fazendo com que uma série de questionamentos o levem a resistir a essa simulação de realidade criada pelo grande irmão; o  Ministério do Amor, responsável pelo controle rigoroso de seus cidadãos, ironicamente atende por esse nome, pois a descrição do prédio em que funcionava esse ministério era assombradora, sendo lá o local onde eram levados  os dissidentes, traidores, subversivos. Os recursos do aparelho repressor do estado totalitário do Grande Irmão eram inúmeros, a paranóia social e a patrulha ideológica transformavam todos os cidadãos em possíveis vigilantes e carrascos; havia ainda o Ministério da Paz, responsável também ironicamente pela Guerra, pois no livro, a guerra é considerada um instrumento de manutenção do poder do Grande Irmão. As regras do partido eram: Guerra é Paz, liberdade é escravidão, Ignorância é força. Encontrar no outro distante um inimigo faz com que não se questionem as contradições dentro do estado totalitário e cria um sentimento coesivo típico de uma sociedade em que o estado permeia todos os níveis de relações sociais. O último é o Ministério da Fartura, que costumeiramente divulgava uma serie de boletins das produções materiais da Pista Número 1 (nome do país fictício de Orwell). Esses boletins vinham com números adulterados para simular uma possível produção excessiva dos bens e dar uma impressão de comodidade aos cidadãos. Mais uma maneira de distorção da realidade por aparelhos estatais, não muito diferentes do que faz a imprensa hoje em dia.

Numa acepção sociológica, Marx e Engels explicam o Estado como fenômeno histórico passageiro, oriundo da aparição da luta de classes na sociedade, desde que da propriedade coletiva se passou à apropriação individual dos meios de produção. Portanto, trata-se de instituição que nem sempre existiu e que nem sempre existirá, estando fadado a desaparecer, enquanto poder político. Estando aqui bem claras as concepções de autodissolução empregados na Análise Institucional, o Estado é o poder organizado de uma classe para opressão de outra, estando esses dois em movimento dialético, então, “Se toda a história é história da luta de classes é porque a história sempre foi a mesma coisa, numa palavra, pré-história.”

Uma vez que o livro foi escrito em 1948, estamos a sessenta anos à frente das previsões que George Orwell teceu em seu livro. Na época, ele fazia uma crítica de acordo com o que eles estavam vivendo, ou seja, uma crítica ao Comunismo, que teria surgido com o objetivo de dar outra solução diferente do capitalismo. Acreditando que hoje vivemos num mundo bem diferente do exposto acima, longe das sombras “terríveis do comunismo”, percebemos ao analisar a obra de George, que o nosso sistema capitalista não é muito diferente da crítica do livro, instaura-se numa produção de alienação, falta de sentido, uma verdadeira crise de identidade e que, revestida de uma pseudo-democracia, vivemos aparentemente em uma sociedade livre, a obscuridade e sutileza com que somos dominados produz uma apatia frente ao pensar, e são impostos modelos que devemos seguir. Nossas escolas muitas vezes são vistas como aparelhos ideológicos, com a finalidade de reproduzir a submissão frente a uma ideologia dominante, onde produzir, criar e até errar são desvalorizados, pois a criatividade gera transformação e o Estado necessita de uma manutenção dessa ordem. O sistema em que vivemos é pautado numa lógica esquizofrênica, pois ele não consegue ser sustentável, de maneira que a procura desenfreada por acumulação de lucros está baseada no capital intensivo e este é intimamente ligado aos recursos naturais, uma vez que esses recursos são esgotáveis, em que as variáveis econômicas não incluem os fatores sociais e ecológicos, estando portanto fadada ao fracasso. Hoje ao lermos o livro que é uma distopia, que ao contrário da utopia, é uma situação  de anormalidade e traz numa forma irônica, mas muito coerente e real, um alerta ao estado capitalista em que vivemos hoje: “Capitalismo é o espaço de contradição paradoxal entre impacto do processo de circulação do capital e mecanismos de controle e disciplina normalmente vinculados ao estado, à família, às instituições.” (2008, p. 142). O mundo globalizado perde referências e a memória acaba por se esvair ao longo de tantas normatizações. Ainda não conseguimos provocar mudanças significativas na história, ainda vivemos em um mundo pautado numa lógica que foi tão institucionalizada e incrustada no nosso pensamento, que não conseguimos provocar fissuras para que esse modelo seja reestruturado e a partir daí, que realmente façamos uma revolução de paradigmas. Já que “os indivíduos conhecem, pensam e agem segundo os paradigmas inscritos culturalmente neles. Os sistemas de idéias são radicalmente organizados em virtude dos paradigmas.” (MORIN, 1991 p.188).

Vários autores e pensadores como Geoffrey Chew, Fritjof Capra, David Bohm entre tantos outros, tentam agora desenvolver novas teorias filosóficas que reúnam condições de criar novas visões de mundo, a filosofia bootstrap, ao cindir com a visão antiga que procura elementos fundamentais e leis que regem certos tipos de movimentos, buscando explicações exatas, verdades e certezas, traz essa nova visão do universo como sendo uma teia de relações onde não existe centro e sim processos dinâmicos inter-relacionados. Alberto Guerreiro Ramos extrapolando essas pesquisas para o campo das relações sociais e políticas junto com a visão sistêmica dos sistemas administrativos, procura demonstrar a importância de processos descentralizadores, cooperativistas e ecológicos.

Vimos nesta análise que a experiência histórica socialista ruiu, vítima de sua pragmática identificação com o progresso material (isso vale para o Estado e as pessoas), o comunismo empenhou-se em desenvolver a infra-estrutura, e não na formação da sociedade civil e na democratização da estrutura política. Tanto o capitalismo como o comunismo, estão inseridos na perspectiva materialista da construção de riqueza, em que esse capital estaria norteando suas ações. Uma sociedade que entendesse que esse conjunto inter-relacionado de pessoas, sistemas e organismos vivos, deveriam estar de acordo com os movimentos da vida, como na visão biocêntrica, que a vida seja o centro dando conta de todas as variáveis sociais e ecológicas, assim, permitindo que nada fosse centralizado e nada fosse excluído das condições que exigissem a perpetuação da VIDA em todas as suas formas. A igualdade seria atingida num nível de cooperação entre os seres ligados nessa teia dinâmica, onde a liberdade de pensar e criar daria condições para “evoluirmos” de forma coletiva e não individualista, através do cooperativismo e não competitivamente, como propõe a autogestão.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ARANTES, P.E. O que está vivo e o que está morto no manifesto comunista? Estud.av. vol.12 no.34 São Paulo Spt./Dec. 1998. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-40141998000300017&script=sci_arttext

CAPRA, Fritjof. Sabedoria Incomum. Editora Cultrix – São Paulo. 1990.

BURDEAU, Georges. O Estado. São Paulo: Martins Fontes, 2005

HAURIOU, Maurice. Principíos de derecho público y constitucional. Trad. de Carlos Ruyz del Castilho. 2. ed. Madrid : Instituto Editorial Reus, [s.d.].

MORIN, Edgard. Introdução ao pensamento complexo. Lisboa: Instituto Piaget, 1991.

RAMOS, A.G. A nova ciência das organizações. Uma reconceituação da riqueza nas nações. Rio de Janeiro, Fundação Getúlio Vargas, 1981.

SAFATLE, Vladimir. Cinismo e Falência da Crítica. São Paulo: Boi Tempo, 2008.


[1] Graduandas em Psicologia pela Universidade Federal do Ceará – Campus Sobral.

Sobre a igreja católica:

janeiro 7, 2009

IGREJA CATÓLICA: SANTA E PECADORA.

Lara Késsia Martins Ávila¹

Rosiane Alves de Albuquerque²

RESUMO:

Este artigo trata-se de uma tentativa de analisar institucionalmente a Igreja Católica Apostólica Romana, verificando as contradições presentes em seus dogmas, especialmente nos dogmas relativos à própria Igreja e à Maria. A Igreja Católica é uma das mais importantes e antigas instituições mundiais. Porém sua dinâmica ainda pode ser analisada na atualidade. O artigo também aborda as mudanças sofridas pela Igreja durante sua institucionalização, e principalmente, após ela. Mostra, em alguns aspectos, como o Cristianismo primitivo foi alterado para que a instituição pudesse continuar a existir. O enfoque principal deste artigo está nas contradições presentes entre alguns preceitos do Cristianismo primitivo e alguns dogmas instituídos pela Igreja. Após analisar institucionalmente a Igreja Católica, o artigo chama a atenção para o resultado do princípio de falsificação verificado dentro da mesma.

PALAVRAS CHAVES:

Instituição

Contradições

Institucionalização

Igreja Católica

Cristianismo

IGREJA CATÓLICA

As instituições são definidas como “fenômenos sociais, impessoais e coletivos, apresentando permanência, continuidade, estabilidade” (J. Chevallier, 1981). Para Lourau, a instituição é um amálgama de afetivo, de ideologia e de organização.

A base material da instituição a institui definitivamente. O instituinte se define como o que desenvolve uma lógica de verdade em relação ao momento fundador. O instituído é o que falsifica o espírito fundador da instituição.

Os organizadores esquecem freqüentemente o motivo de seu trabalho organizacional. A institucionalização é, pois, o recobrimento da profecia por um instituído, cujo efeito é o de negar os objetivos iniciais da instituição para seguir objetivos próprios, sem relação com a profecia do momento fundador.

A idéia de institucionalização, portanto, implica raciocinar em termos de duração, temporalidade e historicidade. A abordagem histórica parece necessária a uma análise institucional centrada sobre a institucionalização, pois a objetivação histórica levanta problemas metodológicos e técnicos específicos.

A Igreja Católica é uma das mais importantes instituições mundiais. A institucionalização desta deu-se historicamente no período correspondente ao Império Romano.

Foi durante o governo de Otávio, primeiro imperador romano, que nasceu Jesus Cristo, em Belém de Judá, que mais tarde fundou o cristianismo. Aos poucos o cristianismo foi ganhando seguidores em Roma. Posteriormente, o imperador Teodósio a instituiu como a religião oficial do império.

A Igreja tornou-se dona do mais poderoso dos monopólios, o conhecimento, e passou a deter grande poder ideológico e material. Religiosos cristãos eram os únicos europeus letrados no início da Idade Média.

Após sua institucionalização, a Igreja impôs alguns dogmas para consolidar sua autoridade de ordem divina. O dogma seria uma verdade revelada por Deus, e, como tal, diretamente “proposta” pela Igreja aos fiéis.

O fiel aceita, sem discussão, o dogma como sendo evidente e verdadeiro, pela virtude da autoridade de Deus, que é a verdade absoluta. Se uma pessoa batizada nega deliberadamente ou duvida de um dogma, ela é culpada do pecado de heresia e automaticamente se torna sujeita ao castigo da excomunhão.

Entre os dogmas, estão os que falam sobre a própria Igreja Católica como uma criação do próprio Jesus, e por tanto, a tornando divina e infalível: a Igreja Católica foi fundada por Deus-Homem Jesus Cristo; Cristo fundou a Igreja Católica a fim de continuar a sua obra da redenção por todo o tempo; Cristo fundou a Igreja Católica; Cristo é a Cabeça da Igreja Católica; na decisão final sobre doutrinas concernentes à fé e moral, a Igreja Católica é infalível; o objeto primário da Infalibilidade são as verdades formalmente reveladas da Doutrina Cristã concernentes à fé e moral; a Igreja fundada por Cristo é única e uma; a Igreja fundada por Cristo é santa; a Igreja fundada por Cristo é católica; a Igreja fundada por Cristo é apostólica.

Também foram criados dogmas para assegurar a autoridade dos membros da Igreja: Cristo deu à sua Igreja uma constituição hierárquica; os poderes conferidos sobre os Apóstolos descendem para os Bispos; Cristo nomeou o Apóstolo Pedro para ser o primeiro de todos os Apóstolos e ser a Cabeça visível de toda a Igreja Católica, pela sua nomeação imediata e pessoalmente para a primazia da jurisdição; de acordo com o decreto de Cristo, Pedro terá sucessores na sua Primazia sobre toda a Igreja Católica e para todo o tempo; os sucessores de Pedro na Primazia são os Bispos de Roma.

Ainda segundo os dogmas fixados, o Papa possui poder de jurisdição completo e supremo sobre toda a Igreja Católica, não meramente nas matérias da fé e moral, mas também na disciplina e no governo da Igreja; pela virtude do direito Divino, os Bispos possuem um poder ordinário de governo sobre suas dioceses; a totalidade dos Bispos é infalível, quando eles, ou reunidos em conselho geral, ou espalhados sobre a terra propõem um ensinamento de fé ou moral como aquele que deve ser guardado por todos os fiéis.

Pode-se notar que muitos dos dogmas pregam que os membros da alta cúpula da Igreja têm sua autoridade assegurada pela virtude do direito divino, por tanto, foram “escolhidos” por Deus. No entanto, Jesus pregava a igualdade entre os homens.

O Deus pregado pelo cristianismo primitivo é justo e igualitário, portanto, o dogma que fala sobre a virtude do direito divino contradiz uma das bases do cristianismo primitivo.

Através de vários outros exemplos poderíamos citar como o cristianismo primitivo, que seria a profecia da instituição, foi falseado pelos instituintes. Por meio da análise, nota-se que Igreja adotou uma visão Mariocêntrica. Pode-se perceber a diferença da Maria da Bíblia Sagrada e da Maria criada pela Igreja Católica.

No concílio de Éfeso, em 431, Maria foi considerada, pela Igreja, como a mãe de Deus; ela teria se mantido virgem por toda a vida, esse dogma foi aceito no século IV; Maria, imaculada: foi concebida e nasceu livre do pecado original, dogma declarado pelo papa Pio IX, em 1854; Maria assunta ao céu: o corpo de Maria subiu ao céu, dogma declarado pelo papa Pio XII, em 1950.

No entanto, quando se pesquisa na Bíblia, vê-se em Mateus 1.18-25, que Maria é considerada mãe de Jesus, e em Lucas 1.47 e Romanos 3.23; 5.12, que esta nasceu sob o pecado. Em Mateus 12.46-50; Marcos 3.31-35; 6.3-4; e Lucas 8.19-21, Maria teve outros filhos. Em Tessalonicenses 4.13-18, Maria aguarda a ressurreição.

Outros exemplos do mariocentrismo da Igreja Católica são: o terço romano, as igrejas em louvor e honra a Maria, e a confecção de imagens. O terço romano possui 50 décimas, e para cada 10 ave-marias um pai-nosso. Assim obtemos: 50 ave-marias e 10 pai-nossos. Ora-se mais a Maria, que ao próprio Deus.

Existem mais Igrejas Romanas em honra, louvor, adoração e homenagem a Maria, que a Jesus Cristo. No Brasil e no mundo existem mais Igrejas Romanas que são, primeiramente, dedicadas a Maria, depois em honra aos santos e, finalmente, a Jesus.

Na idolatria, ou na confecção de imagens de esculturas, fazem-se mais imagens de Maria, que de Jesus. Quando a imagem de Jesus é presente, trata-se de uma criança indefesa nos braços de sua mãe, ou de um Cristo adulto em sofrimento na cruz. Os carismáticos romanos colam mais adesivos de Maria em seus veículos, do que de Jesus. Dos adeptos da Igreja Romana, há mais aparições, sonhos e revelações (reconhecidos pela Igreja) de Maria, que de Jesus.

Outra distorção do cristianismo primitivo foi a instituição do purgatório através do dogma: As almas dos justos que, no momento da morte, estão carregadas de pecados veniais ou castigos temporais devido aos pecados, entram no purgatório.

O purgatório seria a purificação final dos que morrem na graça e na amizade de Deus, mas não estão completamente purificados, embora tenham garantida sua salvação eterna. Historicamente, o purgatório foi difundido pela Igreja durante a Idade Média, no período de venda das indulgências, mas não há, na Bíblia, menção ao purgatório.

Nos dogmas: “o pecado de Adão é transmitido à sua posteridade, não pela imitação, mas pela descendência”, “o pecado original é transmitido pela geração natural”, e “O mal possui um certo domínio sobre a humanidade por causa do pecado do Adão”, pode-se deduzir que os pecados seriam passados como uma herança, na qual os filhos pagariam pelos pecados de seus pais.

Então, toda a humanidade foi condenada a viver fora do paraíso por causa do erro de Adão e Eva. Deus teria condenado a todos pelo erro dos primeiros humanos. Esta não parece uma atitude do Deus justo, do qual Jesus Cristo havia falado.

Em outros dogmas, pode-se ver outras discrepâncias entre a justiça do Deus pregado pelo cristianismo primitivo e a ideologia pregada pela Igreja Católica: “Deus, pela Sua eterna resolução da Vontade, tem determinado certos homens para bem-aventurança eterna”. Este seria outro dogma que legitimaria a teoria da virtude do direito divino.

Outros dogmas fazem com que o fiel dependa completamente da intervenção de Deus para sua salvação, e por tanto, da Igreja para conseguir essa intervenção: “A pessoa justificada não é capaz na sua vida de evitar pecados, mesmo que sejam pecados veniais, sem o privilégio especial da graça de Deus”; “No estado da natureza caída, é moralmente impossível ao homem sem a Revelação sobrenatural, saber facilmente, com absoluta certeza, e sem uma mescla de erro, toda verdade religiosa e moral da ordem natural”; “Para toda a ação salutar, é absolutamente necessária a graça sobrenatural interna de Deus (gratia elevans)”; “A graça sobrenatural interna é absolutamente necessária para o início da fé e salvação”; “Sem o auxílio especial de Deus, o justificado não pode perseverar até o fim na justificação”; “tornar-se membros da Igreja Católica é necessário a todo o homem para a salvação”.

A Igreja atinge interesses individuais mediante a conscientização dos interesses do coletivo. Ela tem o poder de influenciar uma boa parte da população mundial, e esse poder deveria ser usado para pregar as bases dos ensinamentos do cristianismo original. No entanto, isso não acontece na prática. A Instituição da Igreja católica Apostólica Romana tem usado sua influência para satisfazer aos interesses de uma minoria.

Os católicos se defendem, dizendo que a Igreja é santa porque o próprio Deus nela habita, santificando-a por sua presença. O pecado dos fiéis não lhe pertence. Só em sentido derivado e indireto se poderia falar de “Igreja pecadora”. Mas, como se pode separar os atos e interpretações dos fiéis se estes mesmos são parte integrante da instituição e a mantêm viva? A igreja Católica é uma instituição fundada e formada por humanos e, portanto, contém os erros aos quais a própria humanidade está sujeita a cometer.

Por mais estudado e resignado que qualquer membro da Igreja possa ser, ainda sim essa pessoa é humana, e passível de erro como qualquer outra. Acreditar nas palavras de outrem como sendo a própria palavra de Deus, pode não ser a melhor alternativa.

A base do Cristianismo antigo foi mudada e distorcida para que a instituição tivesse influência e poder sobre seus fiéis. Com o tempo, a Igreja Católica foi colocando em segundo plano sua principal função: difundir e ajudar a colocar em prática o cristianismo primitivo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

ALMANAQUE Abril: o seu guia de pesquisas prático, rápido e atualizado. Publicação anual. Editora Abril, ano 27, 2001. ISSN 0104-4788

AZEVEDO, Dermi. Desafios estratégicos da Igreja Católica. Lua Nova,  São Paulo,  n. 60,   2003 .   Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-64452003000300004&lng=pt&nrm=iso&gt;. Acesso em: 15/11/2008 às 15h20min.

BOTELHO, José Francisco . Vaticano uma biografia não autorizada. Revista Super Interessante. Edição número 239, maio de 2007. Disponível em: <http://super.abril.com.br/superarquivo/2007/conteudo_503371.shtml>. Acesso em 01/11/2008 às 23h30min.

BRASIL Cristão: A pecadora perdoada. Revista mensal. Ano 11, número 134, setembro de 2008

BRASIL Cristão: O valor do Pai. Revista Mensal. Ano 11, número 133, agosto de 2008.

CANÇÃO Nova: A igreja em defesa da Vida. Revista mensal. Ano VII, número 92, agosto de 2008.

CATECISMO da Igreja Católica. São Paulo: Loyola, 11ª Edição, julho de 2001. ISBN: 85-15-02152-8

CORNWELL, John – O papa de Hitler: A história secreta de Pio XII, Ed. Imago, Rio de Janeiro, 2000.

HESS, Remi. Do efeito Mühlmann ao princípio de falsificação: instituinte, instituído, institucionalização. Mnemosine – Vol.3, nº2, p. 148-163 (2007) – Artigos Parte Especial.

MONCEAU, Gilles. Implicação, sobreimplicação e implicação profissional. Fractal, rev. psicol. ,  Rio de Janeiro,  v. 20,  n. 1, jun.  2008 .   Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-02922008000100007&lng=pt&nrm=iso&gt;. Acesso em 16/11/2008 às 10h00min.

TABOR em páginas: Revista do Movimento Apostólico de Schoenstatt no Brasil: A caminho da canonização. Revista trimestral. Ano XII, número 58, 2008.

THERET, Bruno. As instituições entre as estruturas e as ações. Lua Nova ,  São Paulo,  n. 58,   2003 .   Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-64452003000100011&lng=pt&nrm=iso&gt;. Acesso em: 15/11/2008 às 16h00min.

VICENTINO, Claudio. História geral. São Paulo: Scipione, 1997.


¹Aluna de Graduação em Psicologia da Universidade Federal do Ceará – UFC. E-mail: larinha1989@hotmail.com

²Aluna de Graduação em Psicologia da Universidade Federal do Ceará – UFC. E-mail: rosianeaa@yahoo.com.br

Sobre o namoro:

dezembro 15, 2008

O NAMORO ENTRE OS JOVENS DA CULTURA OCIDENTAL NO SÉCULO 21

Lucas Rocha Aguiar*

Instituição é uma organização ou mecanismo social que controla o funcionamento da sociedade e dos indivíduos que a formam. É um produto do interesse social que reflete as experiências quantitativas e qualitativas dos processos socioeconômicos. Organizada sob a forma de regras e normas, visa à ordenação das interações entre os indivíduos e entre estes e suas respectivas formas organizacionais.

O termo “Instituição”, no seu sentido banal e mais conhecido, é utilizado para retratar um espaço físico, uma organização. Já o utilizando em um sentido mais amplo, é um mecanismo social que possui regras, normas e práticas sociais.

Toda instituição traz consigo a idéia de solidez, integridade, de que ela é perfeita, imutável, eterna, inabalável e incontestável, pois bem, a Análise Institucional vem mostrar que as coisas não são bem assim, vem mostrar os pormenores disso e perceber que a instituição não está só no estatuto que ela faz de si, vai muito além disso. Ela visa analisar friamente, se preocupando mais até com o “não-dito” do que com o propriamente dito, observando e analisando os “bastidores” da instituição, vendo nas entrelinhas. Mas isso não quer dizer que ela vá atacar a instituição, muito menos defendê-la, ela simplesmente mostra aquilo que a sociedade não vê facilmente e que a instituição, geralmente, tenta esconder. A Análise Institucional vem para nos mostrar que, essa idéia de solidez que a instituição prega de si nada mais é do que uma máscara da própria instituição para sua manutenção.

Tratando o amor como uma instituição já que este acarreta em relações e práticas sociais entre os indivíduos que formam a sociedade, no caso, ocidental, e graças a isso pode ser considerado como tal. Com isso, delimitando-se o assunto, é visado analisar uma das facetas do amor: o namoro entre os jovens deste século 21, utilizando-se também para isso, os conceitos abordados na disciplina de Análise Institucional e Pesquisa.

Se para que algo seja uma instituição é preciso que englobe práticas sociais e relacionamentos entre as pessoas na sociedade, a seguir será mostrada uma análise de algumas dessas práticas sociais dessa instituição em estudo.

Os jovens de hoje em dia, em uma grande porcentagem, se apaixonam muito rapidamente e muito facilmente, principalmente as meninas, com pouco tempo algumas já estão dizendo “eu te amo” e ficam totalmente a mercê dos rapazes. Estes, por sua vez, em várias ocasiões, se aproveitam dessa vulnerabilidade feminina em relação a eles e logo se aproveitam e levam a garota pro sexo, que se ilude achando que o rapaz está gostando dela e não é muito raro que este a deixe sofrendo e vá embora atrás de outra “presa”.

Obviamente que esse foi só um exemplo que não é muito raro, mas existe uma infinidade de outros casos e inúmeras outras possibilidades. Em muitos casos, o rapaz pode se apaixonar mais do que a moça, e o homem quando se apaixona geralmente é um sentimento muito sincero. Cria-se todo o instinto de proteção em torno da amada, o rapaz se torna uma espécie de “pai” ou protetor mesmo, ou se formos analisar tomando por base a natureza animal, seria mais ou menos da mesma forma, o macho protegendo a fêmea dos outros machos, para que estes não a conquistem, mesmo que para isso ocorram disputas.

Com o advento da tecnologia, o acesso entre rapazes e moças tem se tornado cada vez maior e mais fácil. Constantemente vão surgindo novas marcas de celulares com uma infinidade de novas funcionalidades; também a internet e seus recursos crescentes são uma realidade cada vez mais presente na vida dos jovens. Recursos esses como os sites de relacionamento, tendo como mais popular destes o orkut, que possui milhões de usuários se relacionando entre si, buscando gostos parecidos, o MSN Messenger que é um programa de bate-papo em tempo real, entre outros. O jovem de hoje não precisa mais sair de casa pra conhecer alguém (caso não queira), pode muito bem fazer isso, virtualmente, dentro da própria casa através da internet, que se tornou o grande ponto de encontro de jovens na atualidade.

Utilizando os conceitos de estigmas (marcas) e estereótipos (clichês sociais, rótulos) abordados na Análise Institucional, vimos que nos jovens isso está cada vez mais impregnado, no sentido de que o homem quando conquista várias garotas numa mesma noite é vangloriado pelos demais, e conhecido como tal. Já uma menina que numa mesma noite faça o mesmo, já é estereotipada como vulgar. Daí vai se criando vários estereótipos bem definidos para ambos os sexos. A virgindade hoje não é mais um tabu como há alguns anos atrás. O que se vê hoje são jovens perdendo a virgindade cada vez mais cedo e, muitas vezes, de forma desregrada. Um jovem que demore muito a perder a virgindade pode ser discriminado pelos demais no grupo.

A sociedade cria vários rótulos para os jovens, eles mesmos até, criam esses estereótipos entre si. Um rapaz que seja alto, loiro, dos olhos verdes é considerado como belo, uma garota que seja magra, tenha o cabelo liso, os seios e o bumbum fartos, é considerada bela, e por aí vai. E quem não pertence a esse seleto grupo acaba por encontrar mais dificuldades em encontrar um companheiro (a), como uma menina que seja gorda, geralmente ela é rechaçada por uma parte dos rapazes por ela ser “feia”.

A adolescência, sempre citada como a fase das descobertas, das novas experiências, a fase em que o jovem busca seu espaço no convívio social com os demais, busca descobrir a si mesmo, uma fase muitas vezes pautada por rebeldia. Os jovens começando a descobrir o amor, o namoro, muitas vezes se decepcionando com o mesmo.

Mas isso não é exclusivamente do jovem. O ser humano desde a sua afirmação como tal tem esse ideal de completude, de querer completar-se com alguém do sexo oposto, alguém para compartilhar alegrias, tristezas e afinidades. E o jovem mais ainda, porque a realidade de hoje é que existe uma porcentagem de jovens que estão entrando cada vez mais cedo no mundo da depressão, das drogas, das bebidas alcoólicas, dos conflitos existenciais, etc. Fazendo da Psicologia, uma ciência sumamente importante no mundo atual, pois os jovens muitas vezes conseguem desabafar mais com os psicólogos ou com os amigos, do que com os próprios pais. Os pais não conseguem mais controlar as ações dos filhos e estes não encontrando uma razão de ser dentro de si, um sentido do existir, buscam no namoro, ou seja, em alguém, essa resposta que nem ele mesmo entende nem encontra dentro de si. Muitas vezes, caso não a encontre no companheiro, acaba se desiludindo da idéia principal do namoro e se fecha e acaba por ter traumas, conflitos, etc.

Agora veremos onde essas e outras práticas dessa instituição que dinamiza e correlaciona os jovens desse século 21 se encaixam com os conceitos de AI.

Para ficar mais fácil o entendimento, como também mais didático, façamos sempre a comparação da instituição estudada com o sentido de instituição mais banal, trocando em miúdos, para se compreender mais claramente o tema abordado, comparemos o namoro com uma empresa.

No início deste artigo foi dito que uma instituição sempre se mostra consistente, robusta. Com o namoro acontece da mesma forma, já que ele é uma instituição. Sempre quando se inicia um namoro na juventude, ele trás uma idéia de que será forte, inabalável, “pra sempre” como acreditam e afirmam muitos jovens, até influenciados pela mídia televisiva e fonográfica, mas com a convivência, com o surgimento dos problemas, dos conflitos, das brigas que vão desgastando a relação, percebe-se que ele não é tão firme e tão durável assim como parecia a princípio, e acaba ruindo como qualquer outra instituição por mais forte que de início possa parecer. E se destrói das formas mais variadas possíveis, por exemplo, acabou o “amor”, traição, brigas exageradas, ciúme excessivo, possessividade, falta de lealdade, companheirismo, volubilidade, discussões em demasia, enfim, uma porção de fatores que por vezes acabam acontecendo, e vale ressaltar que esses fatores não são mutuamente exclusivos, ou seja, devido ao ciúme excessivo, foi ocasionada a possessividade que possibilitou em um grande número de brigas que culminou no término do relacionamento.

Quanto mais tempo esse namoro dura, mais a idéia de consistência o acompanha, usando a analogia proposta, basta pensar que quanto mais tempo uma empresa tem, maior a sua credibilidade. Mas não raro, vemos namoros de vários anos acabando de formas inimagináveis, o que traz à tona aquela idéia de que, se mesmo os casamentos (outra instituição, no caso uma instituição total) que parecem ter muito mais força por trazerem consigo aquelas idéias de “até que a morte vos separe”, tão presente em religiões, principalmente no catolicismo, comunhão de bens, etc., até mesmo eles, terminam, o que dizer sobre os namoros na juventude, que nada mais passam de um “acordo” informal feito por dois jovens que teoricamente se gostam, ou mesmo, se amam, a Análise Institucional pode pôr mais a fundo essa afirmação com o seguinte questionamento: “Mas será que se amam mesmo?”.

Analisar uma instituição é analisar a vida e como ela figura nos indivíduos que compõem a sociedade, cheia de regras, normas, rótulos, pressões, imposições, que a cada dia vão aumentando. Os mesmos conceitos que a AI usa para analisar algo são os mesmos dilemas e pensamentos que todo ser humano acaba tendo ao longo da vida e com eles amadurecendo.

Um namoro também possui regras e normas: fidelidade, companheirismo, afeto, etc. Regras essas, por vezes mais rígidas que muitas empresas por aí…

Lembrando e enfatizando que, segundo a Análise Institucional, uma instituição traz junto consigo o germe de sua dissolução, a sua própria contradição (contra-instituinte), juntamente com os processos pelos quais uma sociedade se organiza (instituinte), e o que ele acarreta ou mesmo “impõe” na sociedade como uma forma social estabelecida (instituído ou institucionalizado). Pensar nisso é de certa forma paradoxal, no sentido de que, como algo pode ser e ao mesmo tempo não ser? Como algo pode ser consistente se carrega junto consigo a raiz de sua destruição? Pode ser feita a seguinte analogia: é como se fosse o veneno e através dele fosse feito o antídoto para o mesmo… É justamente nesse ponto que a Análise Institucional quer tocar e pôr em xeque a instituição e toda a sua estrutura social, como também os nossos saberes sobre essa instituição. É preciso salientar que as instituições são dinâmicas, têm o movimento de constituição e dissolução. Estão se construindo e se dissolvendo de forma bastante rápida e aparentemente imperceptível num loop que se alterna. Assim, elas buscam manter o instituído, mas não o conseguem sem fazer constantes reformas na sua própria estrutura.

Para comprovar esse caráter de certa forma paradoxal de AI, para Lourau, “a institucionalização é um fenômeno inelutável que corrói a sociedade. Qualquer idéia, qualquer invenção, qualquer profecia, à medida que toma forma social, entra em institucionalização, ou seja, perde a radicalidade…” Para Michel Authier, “Quando uma idéia é comprovada, lhe damos forma social, a institucionalizamos; ao mesmo tempo, fazemos com que perca seu sentido…”.

Generalizando a instituição namoro no século 21 e aplicando sob ela estes 3 conceitos extremamente fundamentais da Análise Institucional, percebemos que no caso o instituinte seria o casal de namorados, o instituído seria a imagem que um tem do outro, e o contra-instituinte seria o motivo pelo qual o casal terminou, a contradição que houve naquele amor inicial para que ele culminasse nesse fim, tratando que a culpa disso foi do próprio casal, ou seja, essa instituição namoro no século 21, como qualquer outra, carregou junto com ela o germe de sua própria destruição futura. Indo ainda mais a fundo, se o casal terminou por causa de ciúmes, por exemplo, isso quer dizer que ele (ciúme, no caso o contra-instituinte) estava presente predominantemente com o casal, isto é, o próprio casal carregou consigo o embrião de seu posterior término. É difícil pensar isso, mas analisando bem, faz muito sentido.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁICAS:

LOURAU, René: Análise institucional e práticas de pesquisa; Rio de Janeiro, Ed UERJ, Rio 1993.

FREIRE, Roberto: Ame e dê Vexame,…

Instituição. Wikipédia, a enciclopédia livre, Brasil, 2008. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Institui%C3%A7%C3%A3o>.

HESS, Remi. Do efeito Mühlmann ao princípio de falsificação: instituinte, instituído, institucionalização. Artigos Parte Especial. 2007. p.148-163.


*Aluno de Graduação em Engenharia da Computação da Universidade Federal do Ceará – UFC

Sobre a Beleza:

dezembro 12, 2008

A INSTITUIÇÃO DA BELEZA

Nonata Jakeline Cordeiro Farias[1]

Yan Valderlon dos Santos Lima[2]

Resumo:

Este artigo trata de um tema muito conhecido de todos, a questão da beleza. O seu objetivo de estudo é, utilizando-se dos conceitos da Análise Institucional, tratar a beleza como uma instituição; ele pretende mostrar uma ampla visão tanto histórica, quanto social do processo de institucionalização da beleza; seus entraves, sua evolução e, principalmente, seus efeitos. A parte empírica da pesquisa foi realizada através de pesquisa bibliográfica em livros e artigos relacionados ao tema. Cremos que é de muita importância nos questionarmos a respeito daquilo que foi instituído, pois o processo de criar padrões de beleza tem conseqüências muito destrutivas se considerarmos a quantidade de pessoas dispostas a tentar alcançá-los, desconsiderando a própria saúde. Como as pessoas podem desejar tanto algo que pode trazer malefícios para a saúde? Será que o resultado vale a pena? Seria de grande ajuda se a sociedade tornasse esses padrões de beleza mais acessíveis; criando modelos mais variados e saudáveis para simbolizar a beleza. Nesse caso, o processo de falsificação seria bastante válido.

PALAVRAS CHAVES:

Beleza

Instituição

Instituído

Instituinte

Falsificação

A Beleza

As instituições são definidas como “fenômenos sociais, impessoais e coletivos, apresentando permanência, continuidade, estabilidade” (J. Chevallier, 1981). Falar de uma instituição implica, também, em falar do instituinte e do instituído. O instituinte está ligado aos processos pelos quais uma sociedade se organiza; enquanto o instituído remete à forma social estabelecida.

Aplicando esses conceitos ao analisar a beleza na perspectiva da Análise Institucional, podemos dizer que a beleza seria a instituição, o instituinte seriam os processos pelos quais a sociedade passou para se organizar em torno dela; ou seja, a história da sua institucionalização, e o instituído refere-se aos padrões de beleza estabelecidos. Devemos lembrar, ainda, que esses padrões passam por uma ampla falsificação, ou seja, mudam constantemente.

A beleza, hoje institucionalizada na maioria das sociedades contemporâneas, arraigou-se nas mais variadas culturas. E quando se fala em padrões de beleza atuais é necessário enfatizar a idéia de magreza, corpos sarados, academias de ginástica e malhação, juntamente com os muitos adereços voltados à padronização da beleza.

A crise dessa instituição está no seu próprio conceito. Beleza é a qualidade daquilo que é belo e sabemos que considerar algo belo, ou não, é uma questão muito relativa, depende do ponto de vista de cada indivíduo. Entretanto, a nossa sociedade, há muito tempo, vem impondo padrões de beleza; eles são vários e mudam constantemente.

A institucionalização da beleza desenvolve-se ao longo da história, e junto com ela, afetando e modificando, inclusive, alguns instintos primários. Hoje em dia, a beleza se instalou nas sociedades e se manifesta, de certo modo, até como um afloramento do prazer sexual; pois os próprios instintos sexuais atuais se ligam aos padrões de beleza instituídos.

Os padrões de beleza de antigamente eram completamente diferentes dos padrões de beleza de hoje. Nas sociedades primitivas, a beleza física era vinculada à força física, tendo em vista que, para os padrões de vida antigos, a utilização da força era a garantia de sobrevivência e perpetuação da espécie.

Na era greco-romana, as qualidades corporais valorizadas eram força e agilidade. Logo, para os gregos, a beleza estava nos homens. Em Roma, já verificava-se a existência da vaidade externa, com a utilização de penteados personalizados, a ida às termas e a variação do vestuário segundo a ocasião.

No renascimento, as mulheres valorizadas eram as mais rechonchudas, cujas curvas sugeriam boa alimentação numa época de escassez de alimento. Podemos ainda nos lembrar dos cruéis espartilhos que esmagavam as cinturas das belas donzelas e que hoje nos causam enorme estranheza.

No final da década de 30, o maior atributo de beleza estava em ter pernas longas e bem delineadas. Entre as décadas de 40 e 50, houve uma nova mudança na beleza mundial: o corpo cheio de curvas das garotas de calendários, onde destacou-se a inesquecível Marilyn Monroe.

No Brasil, eram as vedetes do teatro que, rebolando, chamavam as atenções. As formas roliças e generosas que essas moças exibiam, quase sempre dentro de minúsculas peças de roupa, vieram com o fim da Segunda Guerra Mundial (1940-1945), quando destacaram a abundância e a fartura.

Mas com o crescimento do movimento feminista, que culminou com a queima de sutiãs em praça pública, nos anos 60, surgiram as magrinhas “tipo tábua”, uma tendência que foi se intensificando nos anos seguintes. Na década de 90, com a popularização do mundo das passarelas e dos desfiles de moda, as modelos milionárias passaram a ser a inspiração e ícones de beleza para mulheres de todo o mundo, bem como aqui no Brasil, as artistas de televisão, que são até hoje consagradas como musas.

Os padrões de beleza ocidentais são verdadeiros ditadores e transformadores de culturas. As civilizações modernas, devido a seu alto grau de mutabilidade, têm maior predisposição a receber os “mandamentos” da beleza. Uma nova forma de alienação se desenvolve e se cristaliza ao passo de sua absorção por essas civilizações.

O que é prejudicial às sociedades e, claro, a seus indivíduos é justamente a busca por este padrão estético aos pés da perfeição. Os transtornos causados, principalmente psicologicamente, afetam grande parte da população mundial, sobretudo às mulheres.

A prova de que a beleza, tal qual conhecemos hoje, se afirma como uma instituição é a maneira como suas influências se apresentam. Mulheres, homens e crianças baseiam-se, inconscientemente, nos padrões de beleza vigentes e julgam uns aos outros como feios ou bonitos.

As preocupações estéticas estão tão presentes nas sociedades modernas, que é possível constatar a adequação da sociedade aos padrões de beleza impostos. A beleza, atualmente, influencia a maneira de agir e pensar das pessoas. Ela atinge a economia e, conseqüentemente, a política. É uma instituição presente em quase todas as sociedades e encontra seu apogeu e sustentáculo no capitalismo.

Vivemos numa época de culto ao corpo, em que a malhação e os regimes fazem parte da vida da maioria das pessoas, principalmente das mulheres. Os padrões de beleza são internalizados pelas pessoas desde sua infância. O exemplo vem através das célebres bonecas Barbie e Suzy, que aderem os ideais de beleza vigentes desses padrões.

O ideal de beleza internalizado pelas crianças se transforma em uma constante busca pelo corpo ideal logo no início da adolescência, junto às diversas inseguranças desta fase, se estendendo, muitas vezes, por toda a vida adulta. E os impactos causados por essa instituição da beleza chegam a ser devastadores para alguns indivíduos.

Nessa busca, essas pessoas, tentam atingir padrões de beleza que, muitas vezes, não condizem com o seu biótipo, abusando das dietas milagrosas, das fórmulas mágicas de remédios para emagrecimento e do excesso de exercícios físicos. Muitas apelam até para as cirurgias plásticas, que prometem atender aos desejos estéticos de todos que a elas se submetem.

Muitas dessas pessoas desenvolvem transtornos alimentares como a anorexia e a bulimia; e o pior é que as mais atingidas são as adolescentes. Elas fazem de tudo para emagrecer e acabam ultrapassando os limites permitidos por seus corpos: as anorexas, deixando de comer, e as bulímicas comendo e vomitando o que comeram.

É necessário lembrar que, nem sempre, beleza é sinônimo de saúde e que a propaganda de corpos malhados, academias e afins, que entopem os meios de comunicação endeusando a imagem de corpos perfeitos, é falha, pois a perfeição não existe no mundo físico e não podemos nem nos aproximar dela se colocarmos em risco nossa saúde, pois quem não tem saúde não pode ser perfeito.

A beleza parece ter limite de idade. É comum ouvirmos as pessoas elogiarem as crianças e os adultos por seus atributos físicos, mas é raro ouvirmos alguém elogiar a beleza de um idoso. Isso acontece porque a nossa sociedade está repleta de pré-conceitos e pré-noções a respeito do que é belo. Mas todas as pessoas, em todas as idades, podem ser belas; pois não é possível que alguém que já foi belo deixe de o ser só porque envelheceu. Se antes uma pessoa era considerada bonita por ter olhos azuis, ao envelhecer, ela não mudou a cor dos olhos, então, porque ela não é mais bonita?

Temos que enfrentar a realidade e parar de pensar em beleza como sinônimo de perfeição, pois se fosse assim, não haveria beleza humana, pois ninguém é perfeito. Temos que analisar as pessoas levando em consideração a sua idade, não podemos exigir que um idoso tenha a mesma forma física de um adolescente. Devemos considerar outros aspectos para avaliar a beleza dessas pessoas.

E não devemos aplicar essa visão amplificadora somente aos idosos, podemos aplicá-la ao analisar todas as pessoas. Devemos considerar, além da idade, a raça, a cultura, o meio em que ela vive, enfim, não podemos ter uma pré-noção do que é uma pessoa bela, pois todas as pessoas são diferentes, até os gêmeos têm suas diferenças.

A institucionalização da beleza acontece simultaneamente a seu desenvolvimento. Ela é capaz de influenciar as próprias relações entre heteros e homossexuais. As relações humanas como um todo, são influenciadas pela instituição da beleza.

E qual a responsabilidade da mídia diante deste processo de afirmação da beleza institucionalizada na sociedade moderna? É certo que ela é instrumento de propagação do processo, porém, a responsabilidade desse processo é, em sua maioria, da moda, das grandes marcas e dos grandes comerciantes da beleza.

A televisão e as revistas são os principais meios de proliferação dos padrões de beleza. Porém, esses mesmos meios se revezam ao tratar do tema, hora incentivando, hora afirmando os malefícios da busca excessiva pela beleza.

O poder está nas mãos de quem tem dinheiro, logo, a alienação em massa e a imposição de padrões de beleza vêm, justamente, da vontade do grande mercado da beleza, que movimenta muito dinheiro todos os dias e depende da constante busca pela beleza por parte das pessoas para poder enriquecer cada vez mais.

Os ramos que fazem parte desse mercado são inúmeros, desde fabricadores de cosméticos e perfumes, até às grandes grifes. A beleza é utilizada constantemente em comerciais para vender todo tipo de produto, até cerveja, que nunca deixou ninguém bonito, nem pretende deixar. Entretanto, a imagem de corpos malhados e bem feitos, ou seja, adequados aos padrões de beleza vigentes, é largamente utilizada para simbolizar inúmeras coisas, principalmente o bem estar e o prazer.

Mas a beleza não é sinônimo de prazer e bem estar, não podemos confundi-los, são coisas diferentes e não estam obrigatoriamente ligados. Podemos ter prazer mesmo sem seguir as regras da beleza, podemos nos sentirmos bem e ser felizes sem ter os corpos sarados dos comerciais e podemos ter uma coisa que muitos desses corpos não têm: a saúde.

A instituição da beleza continua em constante crise, tentando padronizar o que não é padronizável, por mais que ela se empenhe, ela nunca conseguirá firmar um único padrão, pois embora hajam pessoas cegas, que seguem seus ditos, haverá sempre pessoas que pensam por si e não pelos outros, pessoas que valorizam a sua cultura e não vão abrir mão dela para seguir um padrão inatingível e extremamente mutável.

É complicado, mas, ao analisar a beleza como instituição, devemos considerar o instituído (os padrões de beleza), por ser amplamente falsificado, como uma coisa extremante vulnerável, portanto, destituída do valor que realmente dão para ela. Deveríamos pensar no instituído em termos mais subjetivos, parar de pensar no instituído como uma coisa que possa ser imposta pelo pensamento de poucos, pois instituir padrões de beleza é impor uma visão de mundo de poucos para toda uma massa.

É inevitável tentar conceituar a beleza, diferir o feio do belo, mas essa não é uma tarefa fácil, precisamos livrar-nos de muitas pré-noções e pré-conceitos para isso. E nunca chegaremos a um consenso, pois a beleza é algo extremamente subjetivo, defini-la seria o mesmo que limitá-la.

A beleza é uma instituição que movimenta o mundo todo e, muitas vezes, aprisiona o julgamento, que deveria ser livre, e principalmente a auto-estima. Pois, entre os muitos fatores que constituem a auto-estima, o principal é o corpo. Para ter uma estima alta precisamos não só da nossa própria aprovação, mas, também, da aprovação dos outros.

Vivemos em uma sociedade que não cessa a atividade de cultuar o corpo, assim como, também, de comercializá-lo e desprezá-lo. Mas não podemos nos submeter a esse processo; devemos ter em mente que a beleza não é uma mercadoria que pode ser comprada, que a beleza vem de dentro das pessoas, que os corpos endeusados pela televisão não são os únicos modelos de beleza, que o instituído não tem tanto valor quando alguns pregam, pois podemos falsificá-lo a qualquer momento.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CALDERARO, Fernanda, A imagem da auto-estima. Jornal Mundo Jovem, nº371, RS, outubro de 2006.

CHEVALLIER, J. L’institution. Paris: Presses Universitaires de France,

1981.

CURY. Augusto. A ditadura da beleza e a revolução das mulheres; 2ª edição; Rio de janeiro; Sextante: 2005.

HESS, Remi. Do efeito Mühlmann ao princípio de falsificação: instituinte, instituído, institucionalização. Mnemosine – Vol.3, nº2, p. 148-163 (2007) – Artigos Parte Especial.

MENEZES, Jorge Antônio de. Ditadura da beleza. Epistemo-somática. [online]. dez. 2006, vol.3, no.2 [citado 21 Outubro 2008], p.265-267. Disponível na World Wide Web: <http://pepsic.bvs-psi.org.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1980-20052006000200011&lng=pt&nrm=iso&gt;. ISSN 1980-2005.

SCHPUN, Mônica Raisa. Beleza em jogo: cultura física e comportamento em São Paulo nos anos 20; São Paulo: Boitempo Editorial/Editora SENAC, 1999. 164 p.


[1] Aluna de graduação em Psicologia da Universidade Federal do Ceará – UFC (jak.farias@hotmail.com)

[2] Aluno de graduação em Psicologia da Universidade Federal do Ceará – UFC (valderlon@hotmail.com)

Instituições totais, conceitos básicos

Edclaudio Melo[1]

Rosa Renata[2]

Resumo:

Na idade média surgiram os manicômios e os sistemas prisionários, com o discurso de disciplinar os indivíduos considerados como não socializáveis. Essas instituições, ao serem estudadas com mais detalhes, receberam o nome de instituições totais e caracterizam-se principalmente por serem estabelecimentos fechados, funcionando sobre regime de internação, onde um vasto grupo de pessoas internadas ficam subordinadas a um grupo menor que dirige autoritariamente a instituição. As características dessas instituições totais serviram de base para o surgimento de outras instituições, tais como colégios internos, orfanatos ou reformatórios para menores infratores, herdando o mesmo discurso de socialização dos indivíduos. A partir dos conhecimentos expostos pela Análise institucional percebe-se uma complexa relação de poderes entre os sujeitos que se organizam em torno dessas instituições. Através desses conceitos básicos apresentados, percebemos a importância de um estudo acerca desses conhecimentos na perspectiva de transformação das referidas instituições.

Palavras-chave: instituições totais, análise institucional

As Instituições totais

A sociedade busca modos para disciplinar os indivíduos, ditos como não socializáveis, com esse intuito surgiram as instituições totais que segundo Goffman, se caracterizam por serem estabelecimentos fechados que funcionam em regime de internação, onde um grupo relativamente numeroso de internados vive em tempo integral e em contra partida uma equipe dirigente que exerce o gerenciamento administrativo da vida na instituição.

Goffman, quando foi estudar, de modo mais aprofundado, as instituições totais, enumerou-as em cinco grandes grupos: o primeiro seria criado para cuidar de pessoas que, segundo se pensa, são incapazes e inofensivas, tais como cegos, velhos, órfãos; o segundo seria criado para cuidar de pessoas consideradas incapazes de cuidar de si mesmas e que são também uma ameaça a comunidade, embora de maneira não intencional, tais como sanatórios para tuberculosos, hospitais para doentes mentais e leprososários; o terceiro tipo seria criado para proteger a comunidade contra perigos intencionais, e o bem estar das pessoas assim isoladas não constitui problema imediato, tais como cadeias e penitenciárias; o quarto grupo seria criado com a intenção de realizar de modo mais adequado alguma tarefa de trabalho e que se justificam apenas através de tais fundamentos instrumentais, tais como quartéis e escolas internas; por ultimo, o quinto grupo seria a criação de estabelecimentos destinados a servir de refúgio do mundo, embora muitas vezes sirvam também como locais de instrução para religiosos, tais como mosteiros e conventos.

Mas, o aspecto central das instituições totais pode ser descrito com a ruptura das barreiras e a união das três esferas da vida: dormir, brincar e trabalhar.

Sendo elas realizadas no mesmo local e sob uma única autoridade e cada fase da atividade diária do participante é realizada na companhia imediata de um grupo relativamente grande de outras pessoas, todas elas obrigadas a fazer as mesmas coisas em conjunto, em horários rigorosamente pré-determinados por um sistema de regras formais explicitas e um grupo de funcionários.

Quando as pessoas se movimentam em conjuntos podem ser supervisionadas por uma pessoa, cuja atividade principal é a vigilância, ou seja, fazer com que todos façam o que foi indicado como exigido, sob condições em que a infração de uma pessoa tende a salientar-se diante da obediência visível e constantemente examinada dos outros.

Identificam-se opressores e oprimidos, caracterizados pela equipe dirigente e pelo grupo dos internados, os primeiros modelam e os segundos são objetos de procedimentos modeladores.

Pode-se observar isso através das restrições à transmissão de informação quanto aos planos dos dirigentes para os internados. Geralmente, os internados não têm conhecimento das decisões quanto ao seu destino.

Desenvolvem-se dois mundos sociais e culturais diferentes, que caminham juntos com pontos de contato oficial, mas com pouca interpenetração. A divisão equipe dirigente-internado seria uma conseqüência básica da direção burocrática de grande número de pessoas.

Outra característica refere-se ao trabalho dos internados, no qual qualquer incentivo dado ao trabalho não terá a significação estrutural que tem no mundo externo, funcionando como uma espécie de escravidão, onde o tempo integral do internado é colocado à disposição da equipe dirigente, gerando uma incompatibilidade entre as instituições totais e a estrutura básica de pagamento pelo trabalho na nossa sociedade. Os internados de instituições totais têm todo o dia determinado e todas as suas necessidades essenciais são planejadas pela equipe dirigente.

Apesar da separação dos dois grupos, dirigentes e internos, dar a impressão de que o “poder” seja uma instituição, estrutura ou certa potência que um grupo detém em prejuízo de outro, Goffman já revela, de certa forma, que “poder” é substancialmente relação e que são lugares que compõem a sua dinâmica.

Goffman realiza uma modalidade de análise institucional entre os planos macro e micro dos fenômenos que ocorrem nos estabelecimentos fechados. Sua concepção de poder é a de um poder essencialmente modelador, poder instaurado, repressivo e mutilador do eu em sua missão re-socializadora.

O eu é sistematicamente, embora muitas vezes não intencionalmente mortificado. A separação entre o internado e o mundo externo, a perda do seu nome, a obrigação de realizar uma rotina diária de vida que considera estranha a ele, aceitar um papel com o qual não se identifica e a violação da fronteira entre o ser e o ambiente, perdendo, assim, sua privacidade, compõem algumas das mutilações e mortificações do eu nas instituições totais.

Assim ao entrar, o individuo sofre uma série de degradações e humilhações do eu, passando por progressivas mudanças que ocorrem nas crenças que têm a seu respeito e a respeito dos outros que são significativas para ele.

Com todos estes fatores nas instituições totais geralmente se tem a necessidade de um esforço para não enfrentar problemas, a fim de evitar possíveis acidentes, o internado pode renunciar a certos níveis de sociabilidade com seus companheiros.

Dessa forma, ao concluir esta descrição do processo de mortificação, é preciso apresentar três problemas gerais das instituições totais:

O primeiro refere-se ao fato de as instituições totais perturbarem as ações que na sociedade civil o individuo possui certa autonomia, por exemplo estar sempre acompanhado por alguém da equipe dirigente até mesmo em ações simples do cotidiano, a impossibilidade de manter esse tipo de competência executiva adulta pode provocar no internado o horror de sentir-se radicalmente rebaixado no sistema de idade, na maioria dos casos os internados tendem a apresentar uma renúncia à sua vontade; o segundo problema tende a colocar as instituições totais e seus internados em três agrupamentos distintos, considerando as justificativas para os ataques do eu, os internados bem como os diretores buscam essas reduções do eu de forma que a mortificação seja complementada pela automortificação, as restrições pela renúncia, as pancadas pela autoflagelação, a inquisição pela confissão, assim, as várias justificativas para a mortificação do eu são muito freqüentemente simples racionalizações, criadas por esforços para controlara vida diária de grande número de pessoas em espaço restrito e com pouco gasto de recursos, também as instituições totais mostram-se fatais para o eu civil do internado, embora possa haver variações entre a ligação do internado e o eu civil; por fim, o terceiro e último problema é a relação entre esse esquema simbólico de interação para a consideração do destino do eu e o esquema convencional, psicológico, centralizado no conceito de tensão, a mutilação ou mortificação do eu tendem a incluir aguda tensão psicológica para o individuo, mas para um individuo desiludido do mundo ou com sentimento de culpa, a mortificação pode provocar alívio psicológico.

Juntamente ao processo de mortificação é desenvolvido o sistema denominado “sistema de privilégios” no qual é possível mencionar três elementos básicos:

O primeiro relaciona-se as “regras da casa” que são um conjunto relativamente explicito e formal de proibições que demonstram as principais exigências quanto à conduta do internado; o segundo relaciona-se ao pequeno número de prêmios ou privilégios claramente definidos, obtidos em troca de obediência à equipe dirigente, a construção de um mundo em torno desses privilégios secundários é talvez o aspecto mais importante da cultura dos internados; o terceiro elemento está ligado aos castigos, estes são uma conseqüência severa da desobediência às regras, tais castigos são formados pela recusa temporária ou permanente de privilégios ou pela eliminação de tentar consegui-los.

Além dos processos de mortificação e do sistema de privilégios, Goffman também faz ênfase ao que denominou de “táticas de adaptação” apresentando quatro maneiras distintas do internado adaptar-se ao mundo da instituição e aos mandos da equipe dirigente, que são:

A primeira consiste na tática de afastamento da situação, no qual o internado aparentemente deixa de dar atenção a tudo, com exceção dos acontecimentos que cercam o seu corpo, e vê tais acontecimentos em perspectiva não empregada pelos outros que lá estão; a segunda consiste na “tática da intransigência” no qual o internado intencionalmente desafia a instituição ao visivelmente negar-se a cooperar com a equipe dirigente, porém quando a equipe dirigente identifica a tática do intransigente logo impõe sua força tendo em vista derrotá-lo, assim o internado, vendo que não terá sucesso, passa para alguma outra tática de adaptação; a terceira tática de adaptação é a “colonização”, a experiência do mundo externo é usada como ponto de referência para demonstrar como a vida no interior da instituição é desejável, e a usual tensão entre os dois mundos se reduz de maneira notável; a quarta maneira é a da conversão, onde o internado parece aceitar a interpretação oficial e tenta representar o papel do internado perfeito, apresentando-se como alguém cujo entusiasmo pela instituição está sempre à disposição da equipe dirigente. Sendo assim, cada tática representa uma forma de enfrentar a tensão entre o mundo original o mundo institucional.

Essas instituições ditas disciplinares foram criadas há alguns séculos e algumas mudanças ocorreram desde o seu surgimento, tais como visitas intimas para aliviar os penitenciários, anestesias nas seções de choques elétricos nos pacientes manicomiais ou atividades terapêuticas.

Porém essas mudanças ocorreram com o propósito de mudança do cenário, mas o método disciplinar ainda permanece sem muitas transformações e quando fazemos uma Análise institucional, sendo esta uma abordagem que busca a transformação das instituições a partir das práticas e discursos dos seus sujeitos, não se limitando a estudar, de forma isolada, o nível das relações inter-pessoais, o da organização, estrutura física ou da sociedade vista como um todo estruturado e coerente, percebemos que certas características das instituições totais ainda permanecem vivas.

Tais são a residência, o trabalho, o lazer ou espaço de alguma atividade específica, que pode ser terapêutica, tudo isso funcionando na própria instituição; assim como a relação entre os sujeitos da instituição, no caso internos e a equipe dirigente.

Vendo também algumas das contribuições da análise institucional relativas à produção da subjetividade no contexto institucional, uma leitura mais atenta de Goffman então permitirá encontrar também uma dimensão produtiva do poder: há nele uma micro organização social dos estabelecimentos totalitários que explicita toda uma tecnologia de poder altamente criativa.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

Goffman, E. (1987). Manicômios, prisões e conventos. 2ª ed. São Paulo: Perspectiva.

Lourau, R. (1993). Análise institucional e práticas de pesquisa. Rio de Janeiro: UERJ


[1] Aluno de Psicologia da UFC / Campus Sobral (edclaudio@hotmail.com)

[2] Aluna de Psicologia da UFC / Campus Sobral (rosinha_top@hotmail.com)

Sobre a velhice:

dezembro 12, 2008

A ANÁLISE INSTITUCIONAL DA VELHICE E O PAPEL DAS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS COMO UM SABER PRÁTICO

Alexsandra Maria Sousa Silva[1]

Maria Luisa Ximenes Feijão[2]

RESUMO

Este artigo trata da análise institucional da velhice, considerando esta enquanto práticas sociais. Iniciamos com um breve histórico sobre o surgimento e desenvolvimento da construção da Análise Institucional, antes confundida com o conceito de organização, mas aqui tratada como a essência do pensamento (pensar do movimento que cria) que sustenta a instituição. Utilizamos fundamentos teóricos encontrados na Análise Institucional e na Psicossociologia, bem como algumas obras de autores que tratam do assunto.

INTRODUÇÃO: UM BREVE HISTÓRICO SOBRE A EVOLUÇÃO DA ANÁLISE INSTITUCIONAL

A Análise Institucional é um produto social-histórico, considerando que o movimento institucionalista é produto da crise. Na sua história, Castoriadis é o primeiro que delimita uma diferença entre Análise Institucional e organização, definindo a primeira como “uma rede simbólica, socialmente sancionada, em que se combina em proporções e relações variáveis, uma componente funcional e uma componente imaginária.” (Catoriadis, 1975) Sua evolução histórica apresenta uma pretensão em trabalhar com a contradição e com uma diversidade de conceitos paradigmáticos que sustentam seu arcabouço teórico.

É na elaboração de seu conceito-pivô, a instituição, que encontramos os termos instituinte, instituído e institucionalização e seus respectivos papéis. Ao analisar as grandes contradições e também as que estão presentes no interior dessas instâncias, a Análise Institucional propõe um novo espaço de saber que rompe com o saber então instituído.

Outro nível contraditório perceptível na instituição é o movimento, ou processo de autodissolução, muitas vezes, revelado como invisível. Mas que ao se fazer presente, provoca grandes surpresas. A definição de conceitos como autogestão e heterogestão demonstram que a Análise Institucional possui uma face “política”, evidenciada nessa contradição entre sermos “geridos” por “outrem” ou a partir de nós mesmos. Outro conceito essencial é o conceito de implicação. Partindo dele, é que buscamos uma análise de nossas próprias implicações, ou seja, dos “lugares” que ocupamos no meio social.

O termo institucional passou a designar atividades de investigação/intervenção nos setores mais diversos. Partindo das práticas sociais, referentes também à diversidade desses setores, admitem-se quatro correntes no movimento institucionalista: Análise Institucional Sócio-analítica, desenvolvida por Lourau e Lapassede, tendo como principais orientações a esquizo-análise e a socioanálise; Sóciopsicanálise Institucional, desenvolvida por um psicanalista marxista, Mendel, em 1972. Não dissociava a concepção de instituição da de organização; Sociologia Institucionalista ou Análise Institucional de inspiração sociológica, que investiga as relações que os homens mantêm com suas instituições objetivando contribuir com o conhecimento da complexidade da prática social, o que nem sempre traduz intervenção ou mudança social. Por exemplo: o trabalho de Foucault sobre a loucura; Conscientização Institucional, que trabalha com instrumentos que permitam desmontar e desocultar o não-dito e a ambigüidade que mascara os mecanismos institucionais, numa perspectiva militante e libertadora.

Entendendo esse processo histórico e evolutivo da Análise Institucional e os conceitos por ela utilizados, compreendemos que sua proposta é propor um novo campo de coerência apoiado na categoria de contradição. Perceber a velhice e suas representações sociais a partir deste modelo teórico pode se revelar numa contribuição para o entendimento da complexidade de relações que envolvem essa temática. Considerando-a como essa instituição que se processa dentro de uma dinâmica de relações contraditórias construída historicamente, obtemos a possibilidade de identificação dos modos compartilhados de pensar e de atuar bem como de caracterizar os conhecimentos e crenças dos grupos sociais a respeito da velhice.

SOBRE A VELHICE

A frase “o Brasil é um país de jovens” ecoou em nossos ouvidos durante muitos anos. A imagem do nosso país associada ao seu potencial populacional jovem marcou décadas e mascarou algo inesperado: a sociedade brasileira não contava com um aumento considerável da população idosa, que alcançou níveis alarmantes com tendência crescente de aumento nos próximos anos. O envelhecimento populacional é uma realidade não somente brasileira como também mundial. Em nosso país, tal fenômeno tem provocado mudanças na pirâmide etária, que avança em proporção geométrica.

De acordo com o DPIS – Departamento de População e Indicadores Sociais (2002), considerando a continuidade das tendências verificadas para as taxas de fecundidade e longevidade da população brasileira, as estimativas para os próximos vintes anos indicam que a população idosa poderá exceder 30 milhões de pessoas ao final deste período, chegando a representar quase 13% da população. Se as estimativas apontam tal perspectiva, faz-se necessário refletir sobre a diversidade de imagens da velhice as várias maneiras de vivenciar o envelhecimento e a velhice de acordo com as circunstâncias de natureza biológica, psicológica, social, econômica, histórica e cultural.

Sobre a velhice, Beauvoir (1990) escreve:

Ela é um fenômeno biológico: o organismo do homem idoso apresenta certas singularidades. A velhice acarreta, ainda, conseqüências psicológicas: certos comportamentos são considerados, com razão, como característicos da idade avançada. Como todas as situações humanas, ela tem uma dimensão existencial: modifica a relação do indivíduo com o tempo e, portanto, sua relação com o mundo e com sua própria história. (p. 15)

O OLHAR DA ANÁLISE INSTITUCIONAL

A compreensão da velhice nos vários âmbitos da vida social é revelada muito mais pelo lado depreciativo do que pela possibilidade do encontro de novos olhares e novas percepções. No entanto, a necessidade de encararmos a velhice como uma fase natural da vida, constitutiva do nosso ciclo vital é essencial. Mascaro (2004, p. 09) afirma que “o processo de envelhecimento e a fase da velhice fazem parte de nossas experiências de ser vivo”. Se as experiências estão integradas num processo que vai desde o nascimento até a morte, a velhice é uma fase do desenvolvimento humano tão importante quanto às demais e merece, portanto, esse reconhecimento por parte dos estudiosos do assunto, da família, da sociedade e do Estado.

A complexidade dessa fase do desenvolvimento humano está circunscrita no indivíduo e na sociedade. A velhice não é um fato estático. É o resultado e o prolongamento de um processo: o de envelhecer. É sempre percebida em relação ao outro, visto que precisamos desse outro para nos reconhecer enquanto velhos, entendendo esse “outro” como a sociedade inserida num contexto sociocultural. Vale questionarmo-nos: a partir de que idade podemo-nos considerar velho? Para a psicóloga e gerontóloga Mello Wagner (1989 apud MASCARO, 2004, p. 39), “há a idade cronológica, a biológica, a social e a psicológica”. Entendendo a diferenciação do envelhecimento humano a partir de um olhar que designa a existência de diversas idades, percebemos porque há a demarcação de um tempo para que a velhice seja institucionalizada em todo seu contexto.

A noção do conceito de velhice atravessou diversas épocas como algo não definitivo e seus sentidos e significados são resultados de uma construção social e histórica. Desde a Antiguidade Clássica, passando pela Idade Média, até nossos dias atuais, a velhice assumiu diversas significações, revelando-se no meio social como instituição em seus diversos níveis contraditórios.

O conceito de instituição refere-se aqui, ao que à luz da Análise Institucional, Lourau (1993, p. 11) afirma “instituição não é uma coisa observável, mas uma dinâmica contraditória construindo-se na (e em) história, ou tempo.” O seu processo de institucionalização caracteriza-se pela luta permanente entre instituinte e instituído, em constante contradição com as forças de autodissolução. Apresenta-se enquanto instituição porque comporta sujeitos, saberes e práticas, contradições, implicações, normas, representações sociais, ambos embricados neste complexo sistema de relações. Sua institucionalização ocorre nas relações sociais, nos interesses ideológicos e também econômicos. Abriga relações de poder, visto que as implicações ideológicas e políticas estão sempre presentes. Numa compreensão histórica a acerca das relações de poder envolvidas na velhice, Beauvoir (1990) afirma:

Se o problema da velhice é uma questão de poder, esta questão não se coloca senão no interior das classes dominantes. Até o século XIX, nunca se fez menção aos “velhos pobres”; estes eram pouco numerosos e a longevidade só era possível nas classes privilegiadas; os idosos pobres não representavam rigorosamente nada. (…) Mas quando se faz da velhice um objeto de especulação, considera-se essencialmente a condição dos machos. Primeiro, porque são eles que se exprimem nos códigos, nas lendas e nos livros; mas, sobretudo porque a luta do poder só interessa ao sexo forte. (p. 111)

O ser humano ao longo de sua existência desejou a imortalidade, a longevidade, a eterna juventude e derrotar a morte e a velhice. A busca de realização desses desejos expressou-se através dos mitos, das fábulas, dos rituais mágicos e das receitas dos alquimistas. Atualmente continuamos a querer buscar a “fonte da juventude”. Por isso há uma compatibilidade entre pesquisa sócio-histórica e o paradigma da Análise Institucional, visto que a institucionalização da velhice se desdobra no tempo e implica raciocinar em termos de duração, temporalidade e historicidade.

Para falar de envelhecimento humano é preciso compreender a dinâmica de fatores biológicos, sociais, psicológicos, econômicos e culturais relacionados entre si. Quanto à velhice, essa não possui o mesmo significado para todas as pessoas. Segundo Neri (1991 apud MASCARO, 2004, p. 42), “o envelhecimento, a vivência e a situação do idoso é marcadamente diferente se ele é rico ou pobre; se é saudável ou doente; se é homem ou mulher; se trabalha ou é aposentado; se mora em casa ou em asilo”. Aqui fica nítida como a inter-relação desses fatores, ambos advindos de uma práxis social, institucionaliza a velhice.

A questão é que comumente a velhice é instituída pelo olhar da homogeneidade, como se acontecesse de forma única com todos. É exatamente porque incorpora uma dinâmica de saberes e práticas, que para cada pessoa ela é uma experiência individualizada e heterogênea. Essa homogeneização termina por influenciar sobre as imagens e as diversas maneiras de vivenciar a velhice e o envelhecimento. Um exemplo interessante é o que foi designado por “terceira idade”. Tínhamos o “velho”, depois se criou o “idoso”, agora temos uma categoria designada por “terceira idade”. Há um aparato mercadológico especial para ela, têm atividades direcionadas, instituições que tratam especificamente disso. Fica claro então, que se trata de uma categoria que abrange circunstâncias sócio-políticas, históricas, econômicas e culturais.

Inseridos numa sociedade urbana e capitalista, vivenciamos cotidianamente a “supervalorização do jovem”. A preocupação excessiva com a aparência e o culto ao corpo esbelto, saudável e jovial é disseminada diariamente pela mídia enquanto o envelhecimento é negado, combatido e adiado. Para Mascaro (2004, p. 21), “hoje tentamos adiar o envelhecimento cuidando da saúde, prevenindo as doenças que chegam com o desgaste do organismo e fazendo uso dos recursos da indústria da beleza e do rejuvenescimento”.

Sobre os termos “velho” e “idoso” perpassa uma série de preconceitos. Isso é resultado de uma visão estereotipada que retrata o processo de envelhecer como um quadro sombrio. Em algumas sociedades tradicionais, os velhos eram venerados e respeitados. Era natural que os membros da família tivessem que obedecer às ordens do mais velho, pois este era visto como sinônimo de sabedoria. Na sociedade atual, há uma inversão de imagens e valores, o velho é tratado com preconceito, a começar pelo termo, prefere-se chamar idoso. Nas práticas sociais, o idoso é representado como aquele que possui ideal de jovem, que continua a desfrutar da vida; já o velho é aquele de muita idade, cheio de rugas e resmungão. Porque tanta resistência ao termo velho?

O aumento da longevidade, o progresso social e científico, as transformações na estrutura da família possibilitaram transformações profundas na sociedade e no comportamento das pessoas. Esse aumento significativo da população idosa tem trazido para o universo das ciências inúmeras discussões a respeito da velhice. A abordagem desse objeto de estudo se faz presente nas mais diversas áreas científicas. Isso é o que a Análise Institucional pretende buscar: novas explicações para o social não a partir de uma “originalidade de idéias”, mas da multi-referencialidade. Apelando para diferentes métodos e usando certos conceitos existentes, ela vai se constituindo como um novo campo de coerência. Na Psicossociologia, a velhice tem sido frequentemente discutida a partir da teoria das representações sociais.

Para os pesquisadores tais representações têm implicações na vida cotidiana e nos comportamentos adotados por um grupo de pessoas acerca de um objeto, que são resultantes do modo como os atores sociais representam socialmente esse objeto e do significado que estes adquirem em suas vidas. Essas crenças e valores que atribuem à velhice uma fase de profundas perdas são construídos na formas de representações, nas conversações diárias dos grupos. Sobre a noção de representação social, Moscovici (1981) escreve que:

… um conjunto de conceitos, afirmações e explicações originadas no quotidiano, no curso de comunicações interindividuais. Elas são equivalentes, em nossa sociedade, aos mitos e sistemas de crenças das sociedades tradicionais; elas podem até mesmo ser vistas como uma versão contemporânea do senso comum. (p. 181)

As representações sociais são produzidas através das interações e comunicações no interior dos grupos sociais e refletem a situação das pessoas acerca dos assuntos que são objeto do seu cotidiano. Por isso a importância da análise de suas manifestações nas mentalidades e nas ações dos sujeitos sobre a condição do idoso. Elas evidenciam como as imagens da velhice são compartilhadas entre os diversos grupos e como estas acabam por muitas vezes, se tornando estereótipos e preconceitos, sendo assim, institucionalizadas.

Entre os idosos, as percepções de perdas, das incapacidades e das doenças são aspectos relevantes das representações da velhice. Se tais representações se sustentarem sempre nessa noção de declínio, acarretarão em conseqüências negativas no comportamento não somente deles, mas também daqueles que ainda não são idosos. Por isso a idéia de que elas se constituem como saber prático. Designam um processo que atravessa o tempo e influencia as relações sociais.

Na sociedade ocidental é visto que símbolos, imagens e estereótipos são expressos a todo o momento, principalmente através dos meios de comunicação de massa. Diariamente é veiculado na televisão, um comércio intenso de produtos que garantem a fórmula da juventude e a longevidade. Sobre a influência da mídia, ressalta Mascaro (2004):

Portanto as idéias que a mídia expressa em relação ao envelhecimento e à velhice são muito significativas, pois podem exercer a função de ponto de referência para os próprios idosos, influenciando seu comportamento e suas atitudes, e também as idéias da criança, do jovem e do adulto, a respeito do que significa envelhecer em nossa sociedade. (p. 65)

A velhice também é apresentada como um problema social, visto que o aumento da expectativa de vida traz para o meio social a discussão sobre os custos do Estado e da família com os idosos relativos à saúde, previdência social e políticas públicas.

A Gerontologia tem, através de seus estudos, difundido o termo “velhice bem-sucedida” destacando a importância de uma mudança ideológica que consiste em perceber o envelhecimento e a velhice a partir de seus aspectos positivos e do seu potencial para o desenvolvimento. São perspectivas que demonstram à inserção de novas representações sociais, tão necessárias para romper com as continuidades e permanências.

Isso demonstra que novos olhares estão sendo introduzidos na dinâmica social inaugurando uma nova ética do “saber envelhecer bem”, onde a atividade, a participação, o convívio social são condições significativas para que o idoso sinta-se feliz. Mascaro (2004, p. 70) ressalta que “os modelos de uma velhice valorizada são representados por idosos que enfrentam desafios, fazem projetos para o futuro, mantêm uma agenda repleta de atividades, mostram-se criativos, e relutam em aposentar-se”.

É preciso evidenciar que há uma relação entre os idosos e os papéis que estes exercem na sociedade. Com o envelhecimento, o idoso começa a perder papéis que exercia em sua vida pessoal e social. Mas é substituindo esses papéis por outros, que ele mantém sua satisfação e bem-estar na fase da velhice.

Essas representações sociais de caráter positivo acabam por possibilitar aos idosos o acesso às conquistas sociais, fruto de suas reivindicações e da sociedade civil organizada, através das políticas sociais para a velhice. A implementação da Política Nacional (Lei nº 8.842 de 04/01/1994) que objetiva assegurar os direitos sociais do idoso, criando condições para assegurar sua autonomia, integração e participação efetiva na sociedade e do Estatuto do Idoso (Lei nº 10.741 de 01/10/2003) acarretou em melhorias significativas como fila preferencial em bancos, repartições públicas e privadas, prioridade nos processos jurídicos, passe livre nos ônibus urbanos garantindo-lhe o direito à cidadania. Por isso é fundamental compreender que “saber envelhecer bem” não depende somente do idoso. Envolve também condições adequadas de saúde, moradia, educação e trabalho vivenciado ao longo de sua vida.

Nesse estudo, evidenciamos algumas facetas que compõem a construção psicossocial da velhice e o grau de complexidade presente na compreensão dessa temática. Observamos que a “instituição” velhice é um processo dinâmico que faz, cria, molda e forma os saberes e as práticas sociais intra e inter-grupais e que ao utilizar conceitos da Análise Institucional pretendemos enriquecer nossa compreensão sobre os diversos assuntos aqui abordados.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Nosso país caracteriza-se por muitos contrastes e profundas desigualdades, cenário este responsável por influenciar as práticas sociais, delineando uma diversidade de imagens da velhice e as diferentes maneiras de vivenciá-la. Tais construções são frutos das relações e representações sociais, considerando estas últimas como um processo que cria, elabora e difunde os conhecimentos compartilhados entre os grupos sociais. São provas dessa relação de dependência entre práticas e difusão de saberes.

Por trás dessas diversidades de definições estereotipadas, temos um sistema que rege e controla uma época que se constrói numa inter-relação entre aspectos sociais, econômicos e culturais, sistema este que valoriza os detentores de força para produção de capital. Assim, o velho é marginalizado desse sistema, onde a ordem é produzir para comprar e comprar para produzir. Portanto, se produz a institucionalização de práticas e não-práticas que fazem mover o sistema e junto com ele a sociedade e as relações que lhes são intrínsecas.

Sendo assim, é notório que estes conceitos e estereótipos de práticas são frutos de pura construção social. Pensar o envelhecer é pensar o biológico, o social, o psicológico, numa visão ampla, considerando fatores históricos e culturais.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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MOSCOVICI, S. (1981). On social representations. Em J. P. Forgas (org.), Social cognition. Perspectives on everyday understanding (pp. 181-209). New York. Academic Press.

NERI, A. L. Envelhecer num país de jovens – significado de velho e velhice segundo brasileiros não idosos. Apud MASCARO, S. de A. O que é velhice. São Paulo: Brasiliense, 2004 (Coleção Primeiros Passos).

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SALDANHA, Ana Alayde Werba. Análise comparativa das representações sociais de idosos. In Revista eletrônica: pucrs, v36, Nº 02 – maio/agosto 2005. Disponível em: revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/revistapsico/article/view /1390/1090, acesso em 08 de novembro de 2008.


[1] Aluna de Graduação em Psicologia da Universidade Federal do Ceará – Campus Sobral.(

[2] Aluna de Graduação em Psicologia da Universidade Federal do Ceará – Campus Sobral.(luisa.xi@hotmail.com)

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